Uma mudança de paradigma: assim o xeique Mohammed bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro e vice-presidente do país, descreveu o início do uso da inteligência artificial para acelerar a redação de leis locais e federais, além de analisar os textos já existentes e contribuir com decisões da Justiça. Através do Escritório de Inteligência Regulatória, todos os procedimentos ligados aos serviços públicos também estarão conectados com a legislação.
"O novo sistema permitirá rastrear o impacto diário das leis nas pessoas e na economia, usando dados em larga escala, e vai sugerir regularmente atualizações em nossa legislação", declarou Al Maktoum na ocasião, quando acrescentou que o sistema é vinculado aos principais centros de pesquisa globais.
O especialista com pós-doutorado em direito internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e professor da Universidade de Itaúna (Uit) Wiliander França Salomão lembra ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que o país árabe criou a política nacional de inteligência artificial ainda em 2017, quando o tema sequer passava pela agenda de discussão da maioria dos governos.
"Em 2019, eles inauguraram a Universidade Mohamed bin Zayed de Inteligência Artificial, em Abu Dhabi. Ali já se estuda a inteligência artificial com cursos de pós-graduação nesse sentido. Em 2021, lançou-se a Estratégia Nacional dos Emirados Árabes para Inteligência Artificial. Qual é o objetivo? Impactar todos os setores do país para se tornar um dos melhores destinos mundiais de inteligência artificial", explica o especialista.
Conforme o professor, o desenvolvimento da IA é uma das plataformas utilizadas pelo país para reduzir a dependência econômica do setor de petróleo, que atualmente responde por cerca de 20% da produção local e cujas reservas podem chegar ao fim já em 2067.
"A tecnologia já é usada para atendimento à população em cabines de polícia virtual, para monitorar o trânsito e otimizar cirurgias, isso em larga escala. Ainda há o uso na educação e até mesmo um estudo em IA para tornar o país cada vez menos dependente economicamente dos combustíveis fósseis", pontua.
Um exemplo de como o país tem atraído novos investimentos no setor é a recente visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que anunciou recursos bilionários para criar um hub de IA com envio de tecnologia norte-americana. Conforme Salomão, os Emirados Árabes são vistos como um laboratório para todo o mundo sobre quais os impactos que a ampliação da tecnologia pode trazer no longo prazo.
"O governo espera, com essa nova implantação, não só ter uma ferramenta de IA, mas uma oficina legislativa para impulsionar a elaboração de leis. Mas também quer adequar isso à necessidade da população para execução de serviços públicos e eficiência do governo. Por isso eles criaram uma agência reguladora, para justamente observar o impacto que terá. Tudo é um teste, ao mesmo tempo que é a implantação de um paradigma no país, que já tem experiência de longo prazo para lidar com novas tecnologias", afirma.