CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial
Da Redação
As queixas sobre o preço das passagens aéreas se tornaram rotina no Brasil. Em feriados, férias escolares ou mesmo em viagens de curta distância, encontrar bilhetes abaixo de R$ 800 tornou-se exceção. A percepção popular é acompanhada por dados: estudos internacionais apontam o Brasil entre os países com maior custo por quilômetro voado, acima de nações como Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido, onde viajar de avião costuma pesar menos no bolso.
Mas, afinal, o que faz a aviação brasileira ser tão cara? Especialistas apontam uma combinação de fatores estruturais, econômicos e logísticos que pressionam o valor final pago pelo passageiro.
Combustível e câmbio: a conta que começa antes da decolagem
O querosene de aviação (QAV) é o principal componente da estrutura de custos das companhias aéreas brasileiras. Ele representa, em média, 36% de todos os gastos operacionais. Esse percentual é muito superior ao de empresas nos EUA e na Europa, onde a competição e a escala do mercado reduzem o impacto por passageiro.
Além disso, boa parte dos custos da aviação — leasing de aeronaves, seguro, manutenção e peças de reposição — é cotada em dólar. Estima-se que 57% das despesas das aéreas brasileiras dependem da variação cambial. Com o dólar alto, qualquer oscilação se reflete diretamente no preço da passagem.
“Quando o câmbio dispara, o setor inteiro sente o impacto. E essa diferença acaba chegando ao consumidor final”, explica um consultor do setor aéreo ouvido pela reportagem.
Mercado concentrado e baixa presença de empresas “low cost”
Enquanto destinos como Estados Unidos e Europa contam com dezenas de companhias aéreas e forte presença de empresas “low cost”, o Brasil opera um mercado altamente concentrado. Poucas companhias dominam a maior parte dos voos, o que reduz a competição de preços.
Nos últimos anos, algumas companhias estrangeiras de baixo custo ensaiaram entrar no Brasil, mas a burocracia, o custo operacional elevado e a imprevisibilidade econômica tornaram o mercado pouco atrativo.
“É muito difícil para uma low cost funcionar em um país onde o combustível é caro, os aeroportos têm taxas altas e não há aviões suficientes para cobrir longas distâncias sem infraestrutura complementar”, explica um economista especializado em transporte.
Longas distâncias, poucos aeroportos e dependência do avião
Ao contrário da Europa — conectada por redes de trem de alta velocidade — o Brasil praticamente não oferece alternativas viáveis para grandes deslocamentos. As distâncias entre as principais capitais são extensas, e a malha ferroviária é inexistente para transporte de passageiros.
Isso cria uma dependência natural do avião como principal modal de longa distância, o que mantém a demanda elevada e reduz as possibilidades de competição. Rotas longas, com baixa densidade populacional e poucos aeroportos regionais, também encarecem as operações e diminuem frequência de voos, elevando ainda mais o preço final.
Tributação indireta e custos estruturais elevados
Embora o STF tenha decidido que o ICMS não incide diretamente sobre passagens aéreas, ele afeta significativamente o preço do querosene de aviação em alguns estados. Além disso, os custos financeiros no Brasil — juros altos, leasing caro e seguro elevado — criam um ambiente mais oneroso que o dos EUA e Europa.
A soma desses fatores resulta em um setor com dificuldade para crescer e sem escala para operar com margens mais enxutas.
Por que nos EUA e Europa o passageiro paga menos?
-
Maior competição entre companhias aéreas
-
Forte presença de empresas low cost
-
Malha ferroviária ampla e eficiente, que pressiona os preços
-
Mercado maior e mais estável, que permite diluição de custos
-
Menor dependência cambial em parte dos insumos
-
Infraestrutura aeroportuária mais distribuída e barata
Em destinos como França, Alemanha e Reino Unido, é comum encontrar voos de curta distância por valores equivalentes a R$ 200 ou R$ 300 — realidade quase impossível no Brasil, exceto em promoções muito pontuais.
Um problema estrutural sem solução rápida
O preço das passagens aéreas no Brasil é resultado de um efeito dominó: combustível caro, dólar alto, mercado concentrado, infraestrutura limitada, falta de alternativas de transporte e custos financeiros elevados.
Enquanto países ricos oferecem competição e amplo leque de modais, o Brasil continua dependente da aviação, mas com uma estrutura que encarece cada etapa da operação.
Analistas avaliam que soluções exigem investimentos pesados em infraestrutura, revisão de modelos de tributação sobre insumos, atração de novas empresas e ampliação da malha aérea nacional. Até lá, a tendência é que o valor das passagens continue a oscilar — e permanecer em patamares altos para o consumidor brasileiro.
O que encarece tanto a aviação no Brasil
Combustível e câmbio: a base de tudo
O querosene de aviação (QAV) pesa mais no Brasil do que em qualquer grande mercado internacional. Ele representa 36% dos custos operacionais das empresas aéreas, sendo que grande parte desse valor depende diretamente da cotação do dólar.
Mais da metade dos gastos das companhias — cerca de 57% — é dolarizada, incluindo peças, manutenção, leasing e seguro.
Quando o dólar sobe, o preço da passagem acompanha.
Mais da metade dos gastos das companhias — cerca de 57% — é dolarizada, incluindo peças, manutenção, leasing e seguro. Quando o dólar sobe, o preço da passagem acompanha.
Mercado com pouca concorrência
Ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, onde há forte presença de empresas “low cost”, o Brasil opera com poucas companhias dominantes, o que reduz a competição e, consequentemente, a queda de preços.
Tentativas de entrada de empresas estrangeiras esbarram em burocracia, custos elevados e risco econômico.
Distâncias continentais e falta de alternativas
O Brasil tem dimensões que exigem longos deslocamentos, mas não oferece alternativas como os trens de alta velocidade, comuns na Europa.
Isso cria uma dependência pesada da aviação, elevando a demanda em um mercado com baixa oferta.
Regiões distantes e com baixa densidade populacional recebem poucos voos regulares, o que eleva ainda mais o custo médio por passageiro.
Tributação indireta e custo Brasil
Embora passagens aéreas não sofram ICMS, insumos essenciais — como o QAV — pagam tributos variados.
Além disso, juros altos, burocracia, taxas aeroportuárias e custos de financiamento tornam o ambiente brasileiro mais caro do que o de mercados internacionais.
Como é lá fora?
Nos EUA e na Europa, o passageiro costuma pagar menos por vários motivos:
-
Forte concorrência entre empresas aéreas
-
Presença marcada de companhias low cost
-
Grande oferta de modais alternativos (trens de alta velocidade)
-
Estrutura logística e aeroportuária mais barata
-
Menor dependência cambial
-
Mercados maiores, com maior demanda per capita
Voos internos custando o equivalente a R$ 150 a R$ 300 são comuns na Europa. No Brasil, valores assim aparecem somente em promoções relâmpago.
Destaques — CSN
-
Brasil está entre os países com maior custo por quilômetro voado.
-
QAV representa mais de um terço dos custos da aviação nacional.
-
57% dos gastos das empresas dependem da cotação do dólar.
-
Poucas companhias dominam o mercado, limitando a concorrência.
-
Falta de trens modernos aumenta a dependência do transporte aéreo.
Por que voar é caro no Brasil?
Estrutura do Mercado Aéreo Brasileiro
-
Empresas principais: 3 dominam mais de 90% do mercado doméstico
-
Rotas regionais: pouco mais de 120 cidades possuem voos regulares
-
Dependência ferroviária: inexistente para passageiros de longa distância
-
Preço médio doméstico: entre R$ 800 e R$ 1.500 por trecho em períodos de alta demanda
