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- jornalista Douglas de Souza
Da Redação
A chamada “Teoria do Louco”, conceito recorrente nos estudos de relações internacionais, deixou de ser apenas objeto acadêmico para se tornar elemento concreto da política externa contemporânea. Ao adotar a imprevisibilidade estratégica como instrumento de pressão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reinsere no centro do sistema internacional uma lógica baseada menos na previsibilidade institucional e mais na coerção psicológica e na assimetria de poder.
A estratégia não é inédita. Durante a Guerra Fria, líderes como Richard Nixon recorreram à construção deliberada de uma imagem de irracionalidade controlada para ampliar a credibilidade de ameaças e forçar negociações. No entanto, o contexto atual difere substancialmente daquele período. O sistema internacional de hoje é mais interdependente, economicamente integrado e juridicamente estruturado por regimes multilaterais que dependem, em grande medida, da confiança mútua e da estabilidade normativa.
Ao tensionar alianças históricas, relativizar compromissos multilaterais e utilizar declarações públicas de alto impacto como ferramenta de barganha, Trump desloca o eixo da diplomacia tradicional para um terreno de incerteza permanente. Essa postura pode gerar ganhos táticos pontuais, sobretudo em negociações bilaterais assimétricas, mas cobra um preço elevado em termos de previsibilidade, credibilidade e governança global.
Do ponto de vista jurídico-diplomático, a normalização da imprevisibilidade como método enfraquece princípios centrais do direito internacional, como a boa-fé, a confiança legítima entre Estados e a estabilidade dos compromissos assumidos. Quando grandes potências passam a operar sob a lógica do blefe contínuo, o risco sistêmico aumenta: decisões deixam de ser mediadas por regras e passam a depender da interpretação subjetiva da vontade de um líder.
Além disso, a adoção reiterada dessa estratégia por um ator central do sistema internacional cria incentivos para que outros governos, inclusive regimes autoritários, recorram a práticas semelhantes. O resultado é um ambiente global mais volátil, propenso a erros de cálculo e escaladas indesejadas, em que a diplomacia preventiva perde espaço para a política do fato consumado.
A história demonstra que a imprevisibilidade pode intimidar no curto prazo, mas raramente sustenta uma ordem internacional funcional. Instituições multilaterais, como a ONU, existem justamente para conter esse tipo de lógica e substituir o medo pela negociação, o arbítrio pela norma, e a força pela legalidade.
Ao trazer novamente a “Teoria do Louco” para o centro da política global, a atual condução da diplomacia norte-americana impõe à comunidade internacional um desafio claro: preservar o multilateralismo, fortalecer os mecanismos de diálogo e reafirmar o papel das instituições como antídoto à política da instabilidade.
Mais do que uma escolha de estilo, a imprevisibilidade como método de governo é um teste aos limites do sistema internacional — e à capacidade coletiva de evitar que o mundo volte a ser governado pela lógica do medo.
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