CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial
Da Redação
O Paraguai vive um dos momentos mais delicados de sua história política recente. O presidente Santiago Peña Palacios, integrante da Associação Nacional Republicana (ANR), conhecida como Partido Colorado, foi destituído pelo Congresso Nacional nesta sexta-feira (6), após um processo de julgamento político relacionado à crise financeira do Ueno Bank.
A decisão representa um marco na história democrática paraguaia. Peña tornou-se o segundo presidente eleito democraticamente, desde a queda da ditadura de Alfredo Stroessner, em fevereiro de 1989, a perder o mandato por meio de um julgamento político. O primeiro foi Fernando Lugo, afastado em junho de 2012.
O processo contra Peña foi aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados, com 78 votos favoráveis. No Senado, 44 parlamentares presentes também votaram pela destituição, sem votos contrários. O resultado praticamente unânime evidencia o isolamento político do presidente, que até pouco tempo contava com expressivo apoio parlamentar.
A crise do Ueno Bank derrubou o governo
O episódio que desencadeou a crise política está relacionado à intervenção e posterior processo de resolução do Ueno Bank, uma das instituições financeiras de maior presença no Paraguai.
O Banco Central do Paraguai identificou graves problemas nos indicadores de solvência da instituição, levando à interrupção de suas operações. A medida atingiu aproximadamente 2,9 milhões de clientes, que ficaram temporariamente sem acesso aos recursos depositados.
A situação ganhou dimensão nacional diante da existência de recursos de instituições públicas e fundos previdenciários aplicados na instituição financeira.
O caso provocou questionamentos sobre a atuação dos órgãos reguladores, a fiscalização do sistema bancário e as relações entre o setor financeiro e integrantes do governo.
As acusações contra Santiago Peña
O julgamento político foi fundamentado em acusações de mau desempenho das funções presidenciais e possíveis conflitos de interesses relacionados ao Ueno Bank.
Entre os principais pontos apresentados pelos parlamentares estão:
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Conflito de interesses: questionamentos sobre a antiga participação de Peña no Ueno Holding, grupo empresarial relacionado à instituição financeira.
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Banco Central: críticas à nomeação de Carlos Carvallo, ex-presidente da financeira Ueno, para comandar o Banco Central do Paraguai.
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Recursos previdenciários: questionamentos sobre a concentração de recursos do Instituto de Previdência Social (IPS) no banco.
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Fiscalização financeira: suspeitas de falhas na supervisão e no controle das operações da instituição.
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Possíveis benefícios indevidos: acusações de que decisões administrativas e regulatórias teriam favorecido interesses privados.
As acusações constituem fundamentos do processo político e das investigações. Não representam, por si só, uma condenação criminal de Santiago Peña.
O ex-presidente nega irregularidades, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.
Renúncia não impediu a destituição
Em uma tentativa de encerrar a crise e deixar o cargo antes da conclusão do processo, Santiago Peña apresentou sua renúncia na quinta-feira (5).
A estratégia, entretanto, não produziu o resultado esperado.
A renúncia não foi formalmente aceita pelo Congresso. Durante a sessão conjunta das duas casas legislativas, parlamentares ligados ao governo deixaram o plenário, provocando a falta de quórum e impedindo a conclusão da votação.
A oposição defendia a continuidade do julgamento político. Um dos argumentos era impedir que Peña deixasse a Presidência mantendo as prerrogativas e imunidades associadas à condição de senador vitalício, conforme a interpretação defendida pelos opositores.
Com a sessão interrompida, o Senado deu continuidade ao procedimento constitucional de julgamento político.
Na sexta-feira, após a apresentação das acusações e o andamento do processo, os senadores aprovaram a destituição por unanimidade dos presentes.
Um presidente que perdeu o próprio partido
Um dos aspectos mais significativos da queda de Santiago Peña foi a perda de sustentação política dentro do próprio Partido Colorado.
O presidente havia chegado ao poder em agosto de 2023 com uma ampla maioria parlamentar, condição que lhe proporcionava considerável capacidade de articulação e aprovação de projetos no Congresso.
Entretanto, a crise do Ueno Bank alterou radicalmente esse cenário.
Setores da oposição e parlamentares dissidentes do próprio partido passaram a defender seu afastamento. O apoio de lideranças coloradas ao julgamento político acabou tornando praticamente inevitável a derrota presidencial.
A votação praticamente unânime demonstra que a crise ultrapassou os limites da disputa tradicional entre governo e oposição.
Antecedentes históricos: Fernando Lugo e Raúl Cubas Grau
Com a destituição de Santiago Peña, o Paraguai registra mais um episódio de interrupção de um mandato presidencial desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner.
Em 22 de junho de 2012, Fernando Lugo foi afastado por julgamento político, em um processo que provocou forte repercussão internacional e questionamentos sobre o tempo concedido à sua defesa.
Outro antecedente importante foi a saída de Raúl Cubas Grau, em março de 1999. Na ocasião, o presidente renunciou após a grave crise política conhecida como Março Paraguaio, desencadeada pelo assassinato do vice-presidente Luis María Argaña.
A diferença é que Cubas deixou o cargo por renúncia, enquanto Lugo e agora Peña foram afastados por julgamento político.
Pedro Alliana deverá assumir a Presidência
Com a destituição de Santiago Peña, abre-se o caminho constitucional para que o vice-presidente Pedro Alliana assuma o comando do Executivo paraguaio.
A sucessão ocorre em um momento de grande instabilidade política e econômica. O novo governo terá de enfrentar os efeitos da crise bancária, recuperar a confiança dos investidores, restabelecer a segurança dos depositantes e responder às pressões por apuração das responsabilidades.
Também será necessário preservar a estabilidade institucional e evitar que a crise financeira se transforme em um problema ainda maior para a economia nacional.
O que muda para o Paraguai?
A queda de Santiago Peña representa mais do que a substituição de um presidente. O episódio expõe fragilidades na relação entre o poder político, o sistema financeiro e os mecanismos de fiscalização do Estado.
O caso Ueno Bank colocou em discussão a transparência na gestão dos recursos públicos, a independência das autoridades reguladoras e a necessidade de mecanismos eficientes de proteção aos cidadãos.
A situação também deixa um alerta para outros países da América do Sul: a confiança no sistema financeiro depende não apenas da solidez das instituições bancárias, mas também da credibilidade dos órgãos responsáveis por fiscalizá-las.
O Paraguai entra agora em uma nova etapa política, marcada pela necessidade de reconstruir a confiança pública e esclarecer as responsabilidades relacionadas à crise.
A destituição de Santiago Peña encerra um capítulo do governo iniciado em agosto de 2023, mas abre uma questão muito maior: até que ponto as relações entre interesses econômicos e poder político podem comprometer a estabilidade de uma democracia?

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