CSN - Central Sul de Notícias - Curitiba/Escócia
Da Redação
Quando Brasil e Escócia entrarem em campo nesta quarta-feira (24/6), nos Estados Unidos, um torcedor terá motivos especiais para acompanhar a partida. Nascido na Escócia e morador de Curitiba há cinco anos, Shamus MacAdam, 47, trabalha nos preparativos finais para abrir uma taberna temática escocesa na capital, justamente durante o período da Copa do Mundo.
“Todo mundo por aqui me chama de Escocês. É muito mais fácil”, comenta o morador do bairro CIC, onde vive desde que chegou à cidade.
Das terras célticas para Curitiba
A relação de Shamus com o Brasil começou há quase duas décadas. Em 2008, durante a crise econômica que atingiu a Espanha, onde vivia na época, o professor de línguas decidiu aceitar o convite de amigos brasileiros e tentar a vida do outro lado do Atlântico. Depois de passar 13 anos em cidades do estado de São Paulo, escolheu Curitiba como novo lar.
“Um amigo falava que aqui tinha mais oportunidades, indústrias e movimento. Quando cheguei, gostei muito. É uma cidade organizada e me lembra a região onde cresci na Escócia, com bastante verde e áreas abertas”, conta.
Natural da região de Perth, no centro da Escócia, o torcedor fervoroso do Celtic carrega a admiração pelo futebol brasileiro que começou ainda na infância. Segundo ele, o pai era um grande admirador de Pelé e costumava mostrar ao filho gravações sobre a carreira do Rei do Futebol.
“Eu assistia aos vídeos e depois saía para a rua tentando fazer o que o Pelé fazia. Na Escócia, muita gente torce pelo Brasil quando a nossa seleção não está jogando”, diz.
Escócia e Brasil frente a frente
Agora, porém, os dois países vão se encontrar novamente em uma Copa do Mundo. As seleções se enfrentaram três vezes no torneio, com duas vitórias brasileiras e um empate sem gols.
Apesar do retrospecto, Shamus acredita que a atual geração escocesa pode surpreender. Para ele, a principal força da equipe está no coletivo construído nos últimos anos.
“Talvez a gente não tenha tantas estrelas, mas é um grupo que joga junto. Temos um treinador que conseguiu resultados muito interessantes nos últimos anos”, afirma.
O confronto entre Brasil e Escócia terá um significado ainda mais especial para o professor de línguas. Além de acompanhar a seleção de seu país, ele comemorará no mesmo dia seu aniversário de 48 anos.
A rivalidade histórica com a Inglaterra também faz parte da identidade do torcedor escocês. Entre provocações e bom humor, Shamus gosta de lembrar que muitos compatriotas defendem que o futebol teve origem na Escócia e não na Inglaterra, uma discussão que atravessa gerações e ainda alimenta debates entre torcedores britânicos.
“A Inglaterra fala que o futebol é deles, mas a gente diz que é nosso. Eu sempre digo que, se o futebol está voltando para casa, então está voltando para a Escócia”, brinca.
Um pedaço da Escócia no CIC
O espírito descontraído e o orgulho pelas próprias raízes são características que Shamus pretende levar ao seu novo empreendimento em Curitiba. Nos últimos anos, ele vem transformando um espaço no CIC na Taberna MacAdam, inspirada nos tradicionais pubs escoceses. O local reúne bandeiras, referências ao futebol do país e elementos da cultura local.
“Quando botei os pés no avião ao sair da Escócia, essa ideia veio na minha cabeça, como uma epifania. Um dia eu teria um pub escocês. Só não imaginava que seria aqui”, comenta.
Após a estreia com vitória, Shamus e sua namorada, Sarah Patrocínio, correm atrás da documentação e dos últimos ajustes para abrir as portas a tempo de receber torcedores durante o torneio. O sonho é transformar o local em um ponto de encontro no bairro.
A proposta é que a experiência vá além da ambientação. O cardápio está sendo pensado para apresentar aos curitibanos alguns dos sabores mais tradicionais da Escócia e do Reino Unido. Entre os pratos previstos estão clássicos, como o fish and chips — peixe empanado servido com batatas fritas —, além de outras receitas inspiradas na culinária escocesa, como pastéis de haggis (o famoso prato tradicional escocês feito de miúdos de cordeiro moídos com aveia e temperos).
Herança celta
A influência escocesa em Curitiba vai além dos imigrantes que escolheram a cidade para viver. Há quase três décadas, o músico e pesquisador Carlos Simas, 56, apresenta ao público curitibano elementos da cultura celta por meio de exibições musicais, festivais temáticos e eventos culturais.
Natural de São Paulo e radicado em Curitiba desde 1994, Simas conheceu a música celta quase por acaso. Dois anos após chegar à cidade, encontrou partituras de canções tradicionais escocesas e irlandesas em um livro voltado para violonistas. O interesse inicial rapidamente se transformou em uma paixão.
“Foi uma paixão à primeira vista. Eu encontrei naquele repertório um senso de encantamento que não tinha encontrado em outros estilos musicais', recorda.
Desde então, o músico mergulhou no estudo das tradições celtas, ampliando seu repertório para instrumentos como a gaita de fole, flautas, liras e saltérios. Hoje, acumula experiência com mais de dez instrumentos e participa dos mais variados eventos.
Para Simas, o estilo musical representa uma herança cultural preservada por povos descendentes dos antigos celtas, especialmente na Escócia, Irlanda e País de Gales. Mais do que música, ela carrega séculos de histórias, lendas e tradições.
“A cultura celta está muito ligada ao imaginário das florestas, das brumas, das lendas e do sobrenatural. É uma música que desperta encantamento e transporta as pessoas para outro universo”, explica.
Segundo ele, o interesse por esse universo tem crescido nos últimos anos em Curitiba. Festivais medievais, feiras místicas e encontros temáticos atraem cada vez mais visitantes interessados em conhecer tradições associadas aos povos celtas.
“O público busca uma conexão com histórias antigas, com a figura dos guerreiros, dos bardos e das lendas. É um movimento que cresceu bastante nos últimos anos”, afirma.
A expansão desses eventos ajudou a formar uma comunidade de músicos, artesãos e entusiastas que mantêm vivas referências culturais da Escócia e de outras regiões de influência celta, aproximando os curitibanos de tradições que atravessaram séculos.

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