CSN - Central Sul de Notícias -Especialista Jorge Jaber
Da Redação
A crescente adoção de bebês reborn, bonecos hiper-realistas que simulam recém-nascidos, tem despertado debates e reflexões no campo da saúde mental. Mulheres de diferentes idades têm encontrado nesses bonecos um vínculo afetivo profundo—uma forma de preencher um vazio emocional, lidar com perdas ou simplesmente vivenciar simbolicamente a maternidade. O universo dos bebês reborn — bonecos hiper-realistas que imitam com impressionante fidelidade recém-nascidos de verdade — tem despertado fascínio, polêmica e curiosidade. Embora muitas pessoas os vejam como simples objetos de coleção ou arte, há um número significativo de mulheres que os tratam como verdadeiros filhos. Mas o que está por trás dessa relação tão intensa? Estaríamos diante de um reflexo de carência emocional, uma forma legítima de terapia ou, simplesmente, uma expressão de amor e afeto?
Um Cuidado que Vai Além da Brincadeira
De acordo com o psiquiatra Jorge Jaber, da Clínica Jorge Jaber, no Rio de Janeiro, a relação entre mulheres e os bebês reborn pode ter diversos significados:
"Esses bonecos funcionam como objetos de afeto e cuidado, ajudando a lidar com sentimentos intensos de perda, solidão ou desejos não realizados. A relação é simbólica—elas sabem que se trata de uma boneca, mas projetam nela emoções reais, o que pode trazer conforto psicológico."
Para algumas mulheres, os reborns são uma resposta a uma maternidade que nunca aconteceu. Seja por infertilidade, perda gestacional ou afastamento de vínculos familiares, a experiência simbólica da maternidade pode ser reconfortante. "Não é um problema por si só. Desde que não interfira na vida social ou no bem-estar, essa prática pode ser apenas uma maneira legítima de expressar carinho e pertencimento."
A Linha Tênue Entre Apoio e Isolamento
O psiquiatra Elson Asevedo, do Hospital São Paulo (Unifesp), compartilha da mesma opinião. Segundo ele, algumas mulheres encontram nos reborns um apoio emocional que pode ajudar na recuperação de traumas e dificuldades, como a perda de um filho ou a impossibilidade de ser mãe. "Para algumas, os bonecos representam uma forma de vivenciar simbolicamente aspectos da maternidade que não puderam experienciar. O cuidado com eles pode ser uma saída saudável, desde que não substitua relações reais."
Entretanto, ele alerta para os riscos do isolamento emocional: "Se o envolvimento com o bebê reborn começa a impedir interações sociais, afetar relações importantes ou intensificar sintomas de ansiedade e depressão, pode ser um sinal de que é hora de buscar apoio psicológico."
Objeto ou Companheiro?
A adoção dos bebês reborn pode ser encarada como uma forma legítima de afeto, um recurso emocional para enfrentar desafios internos ou um mero hobby. Mas há um limite: quando o boneco deixa de ser uma representação simbólica e passa a substituir conexões reais, o impacto pode ser mais profundo.
O que são bebês reborn?
Criados originalmente por artistas plásticos e artesãos, os bebês reborn são confeccionados com técnicas minuciosas que visam reproduzir com perfeição todos os detalhes de um bebê real: veias visíveis, pele texturizada, peso compatível, até cheiro de talco. O nível de realismo é tão alto que, à primeira vista, é difícil distinguir um reborn de um recém-nascido de verdade.
Um objeto terapêutico?
Diversos psicólogos e terapeutas têm reconhecido os bebês reborn como ferramentas terapêuticas. Mulheres que enfrentaram perdas gestacionais, lutos maternos ou a dor da infertilidade muitas vezes encontram nesses bonecos uma forma de conforto emocional. A interação com o reborn permite a elaboração simbólica de um trauma, funcionando como uma ponte entre a dor e a possibilidade de cura.
Para mulheres idosas ou com Alzheimer, os reborns têm sido utilizados em contextos clínicos para estimular a afetividade, a memória e o senso de responsabilidade. Há estudos que apontam redução de ansiedade e melhora do humor em pacientes que interagem com esses bonecos, o que reforça sua função terapêutica em certas situações.
Carência ou substituição afetiva?
No entanto, há quem veja com estranhamento a relação intensa de algumas mulheres com os reborns. Há casos em que os bonecos ocupam papéis centrais na rotina: são alimentados, trocados, colocados para dormir, levados em passeios e até recebem certidões de nascimento fictícias. Para muitos, isso pode soar como excesso, revelando uma possível carência afetiva profunda ou mesmo uma dificuldade de lidar com a realidade.
É importante, contudo, não patologizar ou julgar apressadamente. A linha entre afeto simbólico e dependência emocional pode ser tênue, mas deve ser analisada com empatia e contexto. O ser humano projeta sentimentos em objetos desde sempre — seja um diário, uma fotografia ou um brinquedo da infância. Os reborns, nesse sentido, apenas intensificam esse processo.
Amor além da lógica
Por fim, há quem simplesmente ame os reborns como ama uma obra de arte, um animal de estimação ou qualquer objeto que desperte sentimentos positivos. O vínculo não precisa ter explicações clínicas ou diagnósticos psicológicos. Em uma sociedade cada vez mais solitária, onde as conexões humanas nem sempre são fáceis, o amor — mesmo que por um boneco — pode ser um refúgio legítimo, sincero e inofensivo.
Enfim
O vínculo entre mulheres e bebês reborn é complexo e multifacetado. Reduzi-lo a um único rótulo — carência, terapia ou amor — seria superficial. Cada história é única e merece ser ouvida com sensibilidade. Talvez o mais importante seja entender que, por trás de cada reborn, há um coração humano buscando conexão, expressão e cuidado. E isso, por si só, já é profundamente humano.

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