CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial
- jornalista Douglas de Souza
Da Redação
Todos os anos, em diferentes cantos do Brasil, estradas de terra, margens de rodovias, trilhas rurais e antigas rotas coloniais ganham um movimento incomum: são romeiros, vindos de todas as direções, caminhando por fé, promessa, devoção ou gratidão. Eles carregam cruzes de madeira, cartazes com agradecimentos, fotografias de familiares, terços, velas acesas, roupas com estampas religiosas ou camisetas personalizadas para simbolizar a dádiva recebida.
Para muitos, a caminhada é cansativa, exaustiva, por vezes dolorosa. Mas nenhum obstáculo parece grande demais quando comparado ao propósito espiritual que os move.
A romaria — manifestação antiga, popular e profundamente enraizada na cultura brasileira — cresce não apenas no país, mas em várias partes do mundo, ganhando novos significados em uma sociedade cada vez mais urbana, conectada e atravessada por medos, crises e incertezas.
Uma tradição que se fortalece
No Brasil, romarias são registradas desde o período colonial, ligadas principalmente à devoção mariana e a santos populares. Hoje, se espalham por quase todos os estados e se diversificam:
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Romarias a pé, como a de Nossa Senhora Aparecida (SP), Bom Jesus da Lapa (BA) e Santa Paulina (SC).
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Romarias ciclísticas, que surgem com força entre jovens e grupos esportivos.
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Romarias de motociclistas, tornando-se eventos anuais em santuários.
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Romarias fluviais, especialmente na Amazônia.
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Romarias de familiares, feitas em pequenos grupos que se organizam para agradecer uma graça alcançada.
O movimento é tão expressivo que cidades turísticas e religiosas já adaptam estruturas para acolher milhares de visitantes simultaneamente, com voluntários oferecendo água, frutas, atendimento médico e apoio logístico nas estradas.
Testemunhos que movem multidões
A força da romaria está no testemunho. O romeiro anda guiado por uma narrativa pessoal, íntima, muitas vezes marcada por dor e renascimento.
Entre as histórias mais frequentes estão:
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cura de doenças graves;
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livramento de acidentes;
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superação de depressão ou vícios;
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conquista de emprego ou realização profissional;
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proteção aos filhos;
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agradecimento por milagres atribuídos a santos e entidades religiosas.
O trajeto — por vezes de dezenas ou até centenas de quilômetros — simboliza a travessia espiritual de quem quer agradecer, recomeçar ou simplesmente renovar a fé.
Romaria no mundo: um fenômeno global
Embora profundamente popular no Brasil, a romaria cresce também mundialmente. Santuários internacionais vivem recordes de peregrinos:
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Caminho de Santiago de Compostela (Espanha) — ultrapassa 400 mil peregrinos por ano.
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Santuário de Fátima (Portugal) — recebe milhões de devotos anualmente.
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Basílica de Guadalupe (México) — um dos santuários mais visitados do planeta.
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Lourdes (França) — referência para peregrinações ligadas à cura e milagres.
A Organização Mundial do Turismo estima que o turismo religioso é hoje um dos setores de maior crescimento no planeta, superando inclusive destinos de lazer tradicionais em períodos específicos do ano.
Por que a romaria cresce?
Especialistas em antropologia e sociologia religiosa apontam três fatores:
1. Busca por sentido em tempos de crise
A caminhada funciona como “cura simbólica”, reforço emocional e reaproximação com a espiritualidade.
2. Comunidade e pertencimento
O romeiro não anda sozinho. Ele encontra acolhimento, histórias semelhantes e apoio de outros caminhantes.
3. Devoção popular enraizada
A fé dos brasileiros — diversa, sincrética e profundamente afetiva — transforma a romaria em um gesto concreto de gratidão.
O desafio dos santuários: acolher com segurança
Com o aumento no número de romeiros, cidades-santuário enfrentam novos desafios:
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estrutura hospitalar temporária;
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controle de fluxo;
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distribuição de água e alimentação;
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fiscalização de caminhadas noturnas;
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campanhas de segurança nas vias.
A Polícia Rodoviária Federal (PRF) e prefeituras frequentemente criam operações especiais para proteger peregrinos em longos trajetos a pé.
A experiência que transforma
Independentemente da religião ou tradição espiritual, todos os romeiros relatam algo em comum: a romaria transforma. Ela resgata memórias, renova crenças, fortalece vínculos familiares e devolve à vida cotidiana a presença da gratidão — sentimento cada vez mais raro em tempos de pressa e imediatismo. Caminhar por fé, dizem os devotos, é mais do que cumprir uma promessa.
É reencontrar-se consigo mesmo.

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