CSN - Central Sul de Notícias - jornalista Douglas de Souza
Da Redação
Em 21 de janeiro de 1976, o mundo tomou um novo fôlego na aviação comercial: o supersônico Concorde decolou de Paris rumo ao Rio de Janeiro com uma escala em Dakar, no Senegal, marcando o início de uma era em que passageiros poderiam romper a barreira do som e encurtar distâncias que antes exigiam longas horas de voo.
O que fez o Concorde tão especial?
O Concorde foi o primeiro avião comercial a voar constantemente acima da velocidade do som — atingindo cerca de Mach 2,04, ou aproximadamente 2.180 km/h, mais que o dobro da velocidade dos jatos convencionais.
Era uma aeronave tecnológica e estonteante: podia cruzar o Atlântico em pouco mais de três horas — um voo de Paris a Nova York podia levar menos tempo que muitos voos domésticos longos hoje em dia — e voava em altitudes de 60 mil pés (≈18 km), onde a atmosfera rarefeita oferecia um céu profundamente azul e quase nenhum balanço de turbulência.
O design exigiu inovações singulares, como:
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Aerodinâmica especialmente concebida para o voo supersônico;
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Controle de voo e motores com sistemas computadorizados avançados para a época;
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Estrutura capaz de suportar as temperaturas extremas geradas pelo atrito em alta velocidade.
Por que o Concorde deixou de voar?
Apesar de deslumbrante, o Concorde enfrentou obstáculos que o tornaram insustentável:
1. Altos custos operacionais e de combustível
O Concorde consumia enormes quantidades de combustível — muito mais do que qualquer avião comercial subsônico — e precisava de manutenção intensiva e especializada. Isso se refletia em passagens extremamente caras, acessíveis apenas a um nicho restrito de passageiros.
2. Limitações ambientais e regulatórias
O estrondo sônico resultante da quebra da barreira do som impedia que o avião cruzasse áreas terrestres em alta velocidade, restringindo-o principalmente às rotas transatlânticas e reduzindo sua utilidade em voos mais curtos.
3. O acidente de 2000
Em 25 de julho de 2000, o voo Air France 4590 caiu logo após a decolagem em Paris, matando 113 pessoas. Mesmo que a causa direta tenha sido um fragmento de metal na pista, o desastre abalou a confiança no programa.
4. Mercado e economia pós-11 de Setembro
A demanda por voos de luxo diminuiu significativamente após os atentados de 2001, enquanto o custo de manter uma frota tão pequena e complexa se tornou insustentável. Em 2003, British Airways e Air France aposentaram o Concorde definitivamente.
Concorde hoje: legado e memória
Cinquenta anos depois de seu voo inaugural, o Concorde permanece um ícone da engenharia aeronáutica e um marco da cooperação franco-britânica. Exemplar preservados em museus são visitados por entusiastas da aviação como símbolos de uma época em que o impossível parecia ao alcance — mesmo que apenas para poucos.
E a aviação supersônica no século XXI?
Apesar de o Concorde não ter sobrevivido economicamente, a ideia de voar mais rápido que o som nunca desapareceu. Novos projetos e pesquisas estão em andamento para superar as limitações que limitaram a primeira geração de supersônicos:
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Boom Supersonic Overture — um novo avião comercial projetado para atingir Mach 1,7 com eficiência melhor e menor impacto sonoro e ambiental, previsto para entrar em serviço no final da década de 2020.
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NASA X-59 QueSST — um demonstrador experimental criado para reduzir dramaticamente o “estrondo sônico”, gerando apenas um thump suave que poderia permitir o voo supersônico sobre terra e abrir milhares de novas rotas comerciais.
Especialistas apontam que a volta dos aviões supersônicos comerciais dependerá de avanços em combustíveis sustentáveis, redução de ruído, eficiência energética e mudanças nas regulamentações internacionais — especialmente sobre o impacto nas comunidades sob as rotas de voo.
O espaço para supersônicos hoje?
Com o mundo cada vez mais conectado digitalmente, a urgência em reduzir tempos de viagem física ainda existe — especialmente para executivos, equipes de resposta rápida e setores que dependem de mobilidade global eficiente. No entanto, a prioridade atual da aviação comercial tem sido sustentabilidade e eficiência de custos, o que torna modelos supersônicos um nicho de mercado inicialmente limitado.

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