CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial
Da Redação
Mulheres de hoje congelam óvulos para poderem se formar, trabalhar e ter uma vida social atuante. Mais tarde, quando se sentem prontas, decidem ser mães — no próprio tempo.
Cada vez mais mulheres estão adiando a maternidade — não por falta de desejo, mas por planejamento. Entre a graduação, a conquista da estabilidade profissional e a busca por uma vida social plena, o sonho de ser mãe tem sido reorganizado no tempo.
O congelamento de óvulos, antes um procedimento restrito a casos médicos específicos, tornou-se uma ferramenta de autonomia: permite escolher quando e como engravidar, sem a pressão do relógio biológico. Aos 30 e poucos anos, muitas mulheres que priorizaram estudos e carreira começam a revisitar o projeto da maternidade sob novas perspectivas — mais maduras, seguras e conscientes das próprias escolhas, mas também diante dos desafios emocionais, financeiros e biológicos dessa decisão adiada.
Uma decisão estratégica
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), o número de procedimentos de congelamento de óvulos no Brasil cresceu mais de 300% na última década. Em clínicas de fertilização das grandes capitais, a idade média das mulheres que procuram o serviço é de 34 anos, e a principal motivação não é médica — é social.
“Hoje, vemos mulheres que planejam a maternidade da mesma forma que planejam um intercâmbio, uma pós-graduação ou a compra de um imóvel”, explica a ginecologista e especialista em reprodução humana Dra. Juliana Sampaio, de São Paulo. “Congelar óvulos virou uma forma de ganhar tempo, de preservar a possibilidade de ser mãe no futuro, sem a culpa ou a corrida contra o relógio biológico.”
Carreira, liberdade e maternidade
Para a publicitária Carla Negrão de , 33 anos, o procedimento foi uma escolha racional. “Eu sempre quis ser mãe, mas ainda não me sinto pronta — nem emocionalmente, nem financeiramente. Congelar meus óvulos me trouxe paz. Sinto que continuo no controle”, conta.
Histórias como a de Carla se multiplicam entre mulheres que cresceram ouvindo que podiam ser tudo o que quisessem — e agora tentam equilibrar as múltiplas identidades de profissional, companheira e, no futuro, mãe.
Custos e dilemas
Apesar de mais acessível do que há dez anos, o congelamento de óvulos ainda é um investimento alto. Um ciclo completo, incluindo medicação, coleta e armazenamento, pode custar entre R$ 15 mil e R$ 25 mil, além da taxa anual de manutenção. “Não é um processo simples nem garantido”, alerta a especialista. “A taxa de sucesso depende da idade e da qualidade dos óvulos no momento da coleta. Por isso, o ideal é fazer antes dos 35 anos.”
Há também dilemas emocionais. Algumas mulheres relatam frustração ou ansiedade diante da decisão de adiar a maternidade. “O congelamento é um alívio, mas também um lembrete de que o tempo passa”, diz a psicóloga Fernanda Magalhães, especialista em comportamento feminino. “Ele resolve o fator biológico, mas não o emocional.”
O futuro é delas
O debate sobre maternidade tardia toca em um ponto central da vida contemporânea: a autonomia. Em vez de seguir o roteiro tradicional — casar, ter filhos e construir uma família jovem —, muitas mulheres estão escrevendo suas próprias versões dessa história.
“Ser mãe aos 40 não é mais tabu. É uma escolha”, diz a socióloga Paula de Araújo. “O que muda é a relação com o tempo — não o desejo de ter filhos, mas a liberdade de decidir quando isso vai acontecer.”
No fim, o congelamento de óvulos é menos sobre biologia e mais sobre controle. É o retrato de uma geração que quer tudo: liberdade, amor, carreira — e, se for o caso, filhos. Mas quer tudo no próprio tempo.

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