CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial
Da Redação
Desatenção crônica, esquecimento, impulsividade e dificuldade de organização. Para milhões de brasileiros, esses sinais fazem parte da rotina desde a infância — mas nem sempre são reconhecidos como sintomas de um transtorno neurobiológico. O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) afeta crianças, adolescentes e adultos, e ainda é subdiagnosticado no Brasil.
Especialistas alertam: muitas pessoas passam a vida inteira acreditando que são desorganizadas, preguiçosas ou incapazes, quando, na verdade, convivem com uma condição que pode ser tratada e acompanhada.
O que é o TDAH
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, de origem genética e neurológica, caracterizado principalmente por três eixos:
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Desatenção
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Hiperatividade
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Impulsividade
Ele não é causado por falta de disciplina, uso excessivo de telas ou má educação — embora esses fatores possam agravar os sintomas.
Existem três apresentações principais:
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Predominantemente desatento
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Predominantemente hiperativo/impulsivo
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Tipo combinado
Por que é tão difícil diagnosticar
Apesar de ser amplamente estudado, o TDAH ainda enfrenta barreiras culturais, médicas e sociais no Brasil.
1. Sintomas confundidos com traços de personalidade
Muitas pessoas escutam desde cedo frases como:
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“Você é distraído demais”
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“Não termina nada”
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“É inteligente, mas não se esforça”
Esses rótulos mascaram os sintomas reais do transtorno.
2. Falta de informação
Ainda existe desinformação até mesmo entre profissionais da saúde e da educação, o que leva a:
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Diagnósticos tardios
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Confusão com ansiedade, depressão ou estresse
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Minimização dos sintomas
3. Adultos invisíveis
Durante décadas, acreditou-se que o TDAH era exclusivo da infância. Hoje se sabe que mais de 60% das crianças com TDAH continuam apresentando sintomas na vida adulta. Muitos adultos só recebem o diagnóstico após crises profissionais, emocionais ou acadêmicas.
Como o TDAH se manifesta na vida adulta
Diferente das crianças, o adulto com TDAH nem sempre é hiperativo fisicamente. Os sinais mais comuns incluem:
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Procrastinação crônica
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Dificuldade em cumprir prazos
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Problemas de organização financeira
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Esquecimento frequente
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Sensação constante de sobrecarga
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Impulsividade emocional
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Baixa autoestima
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Histórico de trocas frequentes de emprego
Esses fatores impactam diretamente carreira, relacionamentos e saúde mental.
Consequências do diagnóstico tardio
Sem diagnóstico e acompanhamento adequados, o TDAH pode levar a:
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Ansiedade e depressão
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Burnout
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Abandono escolar ou universitário
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Dificuldades profissionais recorrentes
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Uso abusivo de álcool ou drogas
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Relações interpessoais instáveis
O transtorno não tratado não desaparece com o tempo — ele apenas muda de forma.
O diagnóstico não é simples — e nem deve ser
O diagnóstico de TDAH é clínico, feito por profissionais especializados, como psiquiatras e neurologistas, com base em:
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Histórico de vida
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Avaliação comportamental
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Relatos familiares
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Critérios científicos internacionais
Não existe exame de sangue ou imagem que confirme o transtorno.
Especialistas alertam contra a autodiagnose e o uso indiscriminado de medicamentos.
Tratamento e qualidade de vida
Com acompanhamento adequado, pessoas com TDAH podem ter uma vida plenamente funcional. O tratamento pode envolver:
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Psicoterapia (especialmente cognitivo-comportamental)
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Medicação, quando indicada
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Estratégias de organização e rotina
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Ajustes no ambiente de trabalho e estudo
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Educação emocional
O objetivo não é “curar”, mas reduzir impactos e potencializar habilidades.
Um transtorno cercado de preconceito
Apesar dos avanços, o TDAH ainda enfrenta preconceito. Muitos pacientes relatam não serem levados a sério, ouvindo que o transtorno é “moda”, “desculpa” ou “exagero”.
A ciência, no entanto, é clara: o TDAH é real, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e amplamente documentado.
Reconhecer é o primeiro passo
Identificar o TDAH é mais do que dar um nome ao problema — é abrir caminho para compreensão, tratamento e autonomia. Para milhares de brasileiros, o diagnóstico representa algo simples e profundo ao mesmo tempo: a chance de entender a própria história sem culpa.

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