CSN - Central Sul de Notícias - jornalista Douglas de Souza
Da Redação
Entenda o que é o SWIFT
SWIFT é uma cooperativa global, sediada na Bélgica, que fornece o “padrão” seguro de mensagens entre bancos e outras instituições financeiras. Não movimenta dinheiro; transmite instruções (MTs/ISOs) para que os bancos liquidem entre si. É governada por bancos centrais (inclui o NBB, o Fed e o BCE).
O código “SWIFT/BIC” identifica cada instituição no tráfego de mensagens. A rede é dominante em pagamentos internacionais e comércio exterior, mas não é ‘um sistema dos EUA’ — embora os EUA influenciem o sistema financeiro via sanções e pelo domínio do dólar.
SWIFT x liquidação em dólar
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Para liquidar dólares, os bancos usam infraestruturas como CHIPS (privada, da The Clearing House) e Fedwire. Na prática, muitos pagamentos internacionais combinam SWIFT (mensagem) + CHIPS/Fedwire (liquidação USD). Ou seja: cortar SWIFT atrapalha a “coordenação” dos pagamentos; cortar USD clearing paralisa a liquidação em dólar.
Como sanções funcionam na prática
Quem sanciona? EUA (OFAC), União Europeia e aliados impõem proibições a pessoas, bancos, setores e operações. Parte dessas medidas pode incluir retirar bancos da rede SWIFT (decisão europeia, pois a entidade é belga).
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Exemplo concreto: em 2022, a UE removeu bancos russos do SWIFT; não foi um banimento total (Sberbank/Gazprombank ficaram, inicialmente, para permitir pagamentos energéticos). O caso mostra que os cortes costumam ser seletivos e calibrados.
Se o Brasil for sancionado: cenários e impactos
1) Cenários prováveis
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Sanções direcionadas a indivíduos/entidades
– Congelamento de ativos, proibição de negócios com certas pessoas e empresas brasileiras.
Impacto: alto para os alvos; difuso para a economia. -
Sanções setoriais (energia, defesa, tecnologia) e/ou bancos específicos
– Alguns bancos podem ser removidos do SWIFT e/ou perder correspondentes em USD.
Impacto: encarecimento e atraso de pagamentos externos; trade finance comprimido. -
Restrições ao dólar (USD clearing)
– Mesmo que o SWIFT permaneça, perder acesso a CHIPS/Fedwire via correspondentes americanos inviabiliza liquidação em USD.
Impacto: muito alto para comércio e dívida em dólar. -
Corte amplo (improvável)
– Remoção generalizada de bancos brasileiros do SWIFT e bloqueio ao USD.
Impacto: disrupção severa e imediata do comércio exterior e do sistema financeiro.
A experiência com a Rússia sugere que economias grandes tendem a redirecionar fluxos, trocar de moedas e buscar redes alternativas, mas com custos elevados (prêmios de risco, descontos de exportação, inflação por câmbio).
Efeitos macroeconômicos para o Brasil
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Câmbio e inflação: choques de confiança + dificuldade de liquidar USD tendem a depreciar o real; importados (combustíveis, químicos, eletrônicos) ficam mais caros; disseminação inflacionária. BCB teria de avaliar juros e provisão de liquidez cambial. (Inferência baseada em casos sancionados recentes e na mecânica de pagamentos externos.)
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Balança comercial: exportações podem migrar para moedas alternativas e canais mais custosos; importações sofrem atrasos/encarecimento por compliance e seguros.
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Fluxos financeiros: queda de investimento de portfólio, rollover de dívida externa mais difícil, CDS em alta; bancos elevam spreads e pedem mais garantias em trade finance (L/C, SBLC). (Inferência à luz de evidências em sanções recentes.)
Impacto no setor privado
Exportadores e importadores
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Pagamentos e recebimentos: sem SWIFT (ou com bancos-chave fora), reconciliação fica lenta; com USD clearing restrito, é preciso repactuar em outras moedas (CNY, EUR) e ajustar cadeias.
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Trade finance: cartas de crédito e cobranças documentárias exigem bancos “de primeira linha”; se corresponsais evitarem risco Brasil, volumes caem e custos sobem. (Inferência a partir da função de corresponsais em CHIPS/SWIFT.)
Instituições financeiras e fintechs
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Correspondentes podem encerrar relações (“de-risking”); KYC/AML e filtros de sanções endurecem; prazos e tarifas de remessas sobem.
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Sistemas e compliance: adaptação de mensagens ISO 20022 para rotas alternativas; maior dependência de bancos “ponte” em terceiros países (com risco reputacional e de contrassanções). (Inferência com base na experiência russa e no papel de bancos regionais.)
Setores sensíveis
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Energia e commodities: embarques podem exigir bancos/seguros fora do bloco sancionador; descontos de preço para compensar risco de pagamento.
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Aeronáutico/fármacos/alta tecnologia: restrições de exportação (licenças, controles de destino final) dificultam suprimentos críticos. (Padrão em pacotes de sanções setoriais.)
Impacto nas famílias e na sociedade
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Custo de vida: câmbio pressionado encarece alimentos importados, combustíveis e bens duráveis; efeito de segunda ordem em fretes e tarifas. (Inferência macro.)
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Viagens, compras internacionais e streaming: cartões podem funcionar, mas com mais recusas e taxas altas; remessas e pagamentos a provedores estrangeiros sofrem atrasos. (Decorre de bloqueios a adquirentes/correspondentes.)
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Trabalho e renda: cadeias exportadoras e empresas dependentes de importações de insumos podem reduzir produção e emprego no curto prazo. (Inferência macro setorial.)
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Comunidade brasileira no exterior: remessas ficam mais caras/lentas; bancos exigem comprovações extras de origem/finalidade. (Efeito típico de sanções sobre canais formais.)
Alternativas e mitigação (legais)
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Diversificação de moedas e rotas
– CNY/EUR e arranjos de compensação via bancos não sancionados; uso de CIPS (China) ou sistemas regionais, quando viáveis. (Adoção cresceu em rotas Rússia–Ásia.) -
Acordos bilaterais e pré-pagamentos
– Estruturas de barter/clearing e pré-pagos em contratos de commodities dentro da lei para reduzir risco de liquidação. (Inferência baseada em práticas de comércio em ambientes sancionados.) -
Segmentação bancária
– Manter bancos “limpos” (sem alvos de sanções) para comércio essencial; diversificar correspondentes e negociar contas ‘Nostro’ multimoeda. (Boa prática prudencial.) -
Compliance reforçado
– Triagem de contrapartes, listas OFAC/UE, cláusulas de sanções nos contratos, documentação robusta de due diligence para seguradoras e bancos. -
Pagamentos digitais e inovação
– Experimentos com instant payments transfronteiriços e instituições-ponte podem aliviar fricção, mas não substituem USD clearing em larga escala. (Limitações observadas em casos recentes.)
Importante: medidas para evadir sanções (empresas de fachada, rotas opacas, “dark finance”) expõem a sanções secundárias e riscos penais. Mesmo grandes economias que buscaram atalhos enfrentaram custos e vigilância crescentes.
O que empresas no Brasil deveriam fazer agora (checklist prático)
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Mapear exposição: contratos em USD, vencimentos de dívida externa, dependência de insumos importados, uso de cartas de crédito.
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Planos B de liquidação: negociar moedas alternativas, múltiplos correspondentes e rotas de mensagens; testar instruções ISO 20022 por canais redundantes.
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Cláusulas de sanções: atualizar contratos comerciais e financeiros para cenários de bloqueio parcial/total.
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Gestão de caixa e hedge: elevar buffers de liquidez em moeda forte; revisar políticas de hedge cambial; cenários de estresse para 3, 6 e 12 meses. (Boa prática de tesouraria em choques.)
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Governança e comunicação: comitê de crise, plano de continuidade de negócios (BCP), comunicação com clientes e fornecedores críticos.
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Tecnologia e dados: readiness para sanctions screening e arquivamento de mensagens/pagamentos exigidos por auditores.
Posição resumida
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SWIFT não é americano; é uma rede belga de mensagens. Mas o peso do dólar e do sistema de liquidação dos EUA (CHIPS/Fedwire) faz com que sanções lideradas por Washington tenham alcance global.
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Para o Brasil, um corte seletivo ao SWIFT ou ao USD clearing não paralisa a economia, mas encarece e atrasa o comércio e o crédito, afetando preços, emprego e renda — com maior dor no curto prazo. Mitigar é possível, porém com custo e exigindo compliance rigoroso, diversificação de moedas/rotas e planejamento de liquidez.


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