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Por Redação - Reportagem Espcial
O som das flautas andinas — como a zampoña, a quena e o siku — é mais do que uma expressão musical. É o eco de uma civilização antiga que aprendeu a traduzir a natureza em música. Vindas dos povos pré-colombianos que habitavam a Cordilheira dos Andes, essas flautas acompanham rituais, celebrações agrícolas e cerimônias espirituais há mais de dois mil anos.
Hoje, os acordes suaves que antes ecoavam apenas nos vales peruanos e bolivianos ultrapassaram fronteiras. É possível ouvi-los em ruas, feiras e apresentações culturais em várias partes do Brasil, encantando novas gerações e despertando curiosidade sobre suas origens.
Tradição e espiritualidade
Na cultura andina, o som da flauta é considerado uma ponte entre o humano e o divino. A música era utilizada para dialogar com os deuses, agradecer pela colheita ou pedir chuva e fertilidade à Pachamama, a Mãe Terra. A harmonia entre o homem e a natureza, tão presente na cosmovisão andina, se manifesta na sonoridade simples, mas profundamente simbólica, desses instrumentos.
As flautas são tradicionalmente feitas de bambu, cana ou osso, e cada região possui variações próprias de timbre e afinação. A zampoña, por exemplo, é composta por tubos de tamanhos diferentes e tocada em pares, representando a dualidade — um princípio central da filosofia andina, que valoriza o equilíbrio entre forças opostas.
Som que rompe fronteiras
Nas últimas décadas, grupos musicais como Los Kjarkas e Savia Andina ajudaram a popularizar o gênero, levando o som dos Andes a palcos internacionais. No Brasil, a influência é percebida em feiras de artesanato, festivais de cultura latino-americana e até nas trilhas sonoras de produções audiovisuais.
Para o músico boliviano Juan Condori, que há mais de 15 anos se apresenta em cidades do sul do Brasil, tocar flauta andina é “uma forma de manter viva a voz dos antepassados”.
“Quando toco, não é só música. É história, é oração. Cada nota é um agradecimento à vida e à natureza”, afirma.
Patrimônio cultural vivo
A música andina é reconhecida como patrimônio imaterial em vários países sul-americanos, e projetos culturais vêm sendo criados para ensinar as novas gerações a construir e tocar as flautas tradicionais. Escolas comunitárias e grupos folclóricos ajudam a preservar o conhecimento ancestral e a integrar jovens à cultura de seus povos.
Além do aspecto artístico, há também um movimento de valorização das raízes indígenas. O som das flautas se tornou símbolo de resistência e orgulho identitário para milhares de descendentes andinos espalhados pelo continente.
Curiosidades sonoras
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A quena é considerada a “voz humana” dos Andes, pois seu timbre se assemelha ao canto.
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O siku (ou zampoña) simboliza a união: uma pessoa toca metade das notas e outra completa a melodia.
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Cada melodia tradicional está ligada a uma época do ano, especialmente às festas agrícolas e ao ciclo das chuvas.
O legado que continua
Em meio à globalização e à música digital, o som rústico e puro das flautas andinas segue encantando corações e contando histórias. É o lembrete de que, mesmo em um mundo moderno, há tradições que resistem — sopradas pelo vento gelado dos Andes e transmitidas de geração em geração.

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