CSN - Central Sul de Notícias - Reportagem Especial -
Da Redação
Conversas obtidas pelo jornal O Estado de S. Paulo e analisadas pela Polícia Federal mostram que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro cobrava funcionários e executivos do Banco Master para garantir o pagamento, dentro do prazo, de um contrato de R$ 131,27 milhões firmado com o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Assinado em janeiro de 2024, o contrato previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, com vencimento até o quinto dia útil. O escritório prestaria serviços jurídicos ao Banco Master em áreas que incluíam questões relacionadas ao Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional.
A preocupação de Vorcaro com os pagamentos aparece em diversas mensagens.
Em fevereiro de 2024, ao descobrir que a primeira parcela poderia estar atrasada, ele cobrou o tesoureiro do banco, Ângelo Antônio Ribeiro da Silva. Após confirmar o pagamento, o executivo enviou o comprovante, no valor de R$ 3,42 milhões.
“Contrato mais importante que temos”
Em março de 2024, Vorcaro voltou a cobrar o pagamento. Em mensagem ao tesoureiro, afirmou:
“Contrato mais importante que temos. Te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas.”
Pouco depois, orientou Romy Goerck Gentina Klenquen, superintendente de Back Office de Tesouraria, a acompanhar pessoalmente os pagamentos.
“Não deixe atrasar um dia. É o pagamento mais importante que temos.”
A orientação era para que o pagamento fosse realizado todos os meses, sem atrasos.
Contrato deveria ficar restrito
Em abril de 2025, Vorcaro demonstrou preocupação com o acesso ao contrato. Ao perguntar a Ângelo Silva onde estava a versão física do documento, determinou:
“Ninguém ter acesso. Vc pegar e não deixar ninguém ter acesso a isso!”
A mensagem indica que o banqueiro queria restringir o acesso interno ao acordo.
Questionamento sobre pagamento por Pix
Em outubro de 2025, pouco antes de sua prisão na Operação Compliance Zero, Vorcaro voltou a tratar dos pagamentos ao escritório.
Ao perguntar se uma parcela havia sido paga por Pix, recebeu a confirmação de um executivo da tesouraria. Vorcaro respondeu apenas:
“Não é bom.”
As mensagens não esclarecem por que o banqueiro considerava inadequado o uso do Pix para os pagamentos.
Mais de R$ 80 milhões pagos
Até outubro de 2025, o Banco Master havia pago R$ 80,22 milhões ao escritório Barci de Moraes, segundo informações encaminhadas à CPI do Crime Organizado, do Senado.
O contrato previa R$ 108 milhões líquidos em 36 parcelas. Considerados os valores brutos, o acordo chegava a R$ 131,27 milhões.
O escritório informou que o contrato vigorou de fevereiro de 2024 a novembro de 2025 e envolveu serviços de consultoria e atuação jurídica em áreas como regulação do sistema financeiro, compliance, direito trabalhista e previdenciário, proteção de dados e crédito.
A banca afirma que foram realizadas 94 reuniões de trabalho, produzidos 36 pareceres e opiniões legais e mobilizados 15 advogados.
Também declarou que não atuou em processos do Banco Master no STF.
O que as mensagens revelam
As conversas, por si só, não comprovam irregularidade no contrato ou crime por parte de qualquer dos envolvidos. Mas mostram a forte preocupação de Vorcaro com a regularidade dos pagamentos e o grau de prioridade que ele atribuía ao acordo.
O conteúdo ganha relevância porque o contrato envolve o escritório da esposa de um ministro do STF e aparece entre os elementos analisados pela Polícia Federal no contexto da investigação sobre o Banco Master.
Agora, caberá às autoridades esclarecer se a relação entre as partes permaneceu dentro dos limites legais e éticos exigidos de um magistrado da Suprema Corte.

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